“O Verbo” – n° 208 – 1ª quinzena de Agosto 2005
Por Padre Lucas
Consideramos, em artigo anterior, o Deuteronômio como o “Livro da Aliança”. Entretanto, para compreender mais acuradamente sua riqueza, é preciso examinar a origem de seus discursos e as leis que ele contém. Sabemos que sua redação se deu diante das ameaças de desagregação que tendiam a levar o povo de Deus a perder sua identidade. Os autores do Deuteronômio se esforçam por manter Israel no essencial de sua experiência religiosa: a fé em um Deus único que fez dele Seu povo, dando-lhe uma terra, uma Lei e um templo.
O livro reflete a experiência original de Deus e de sua Palavra transmitida por Moisés. O Deus do Horeb é o Deus de Israel. Deus escolheu ser o Deus de Israel. Contudo, essa eleição não é um privilégio. Ela implica uma missão. Procede unicamente do amor fiel de Deus (7,8), e espera uma resposta: o amor a Deus. Amor que se explicita na forma de um mandamento dado por Deus a cada um e a todos, à semelhança do próprio amor divino: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (6,5). “Aqui está um dos aspectos fundamentais da religião de Israel que acompanhou toda a Revelação do Antigo Testamento” (Wiener).
Esse povo escolhido é uma comunidade estruturada que vive em uma terra. Cada geração deve reconhecer que essa terra é um dom de Deus, o sinal concreto de Seu amor por Israel (7,13-15). A Lei é o principio de vida desta comunidade. Israel é chamado a ter “a Torá no coração, o nome de Iahweh nos lábios e um só santuário nacional. Eis o ideal que o Deuteronômio propõe” (Cazelles).
Para tocar o coração dos ouvintes, a Tradição Deuteronomista apela à “recordação”. No Deuteronômio, essa expressão ocorre 15 vezes, sempre em passagens no singular. Ora, o que o povo deve sempre recordar é “o que Deus fez ao faraó e a todo o Egito” (7,18) ou durante a estada no Deserto (8,2; 9,7) ou ainda na Conquista (8,18).
Sabemos, entretanto, que a recordação a que se refere não diz respeito ao passado enquanto passado, mas a um passado que continua presente enquanto fundado no poder de Deus. Constitui-se, portanto, numa atitude de fé e de esperança. Por isso, está associada à liturgia, especialmente à da Páscoa. Está também no centro da ética e dos mandamentos, pois ela diz respeito, antes de tudo, à ação de Deus que almeja, no dia de hoje, uma ação do homem.
De fato, o termo “hoje” é abundante no Deuteronômio, ocorre mais de 70 vezes. “A insistência nesse termo mostra que uma mesma concepção da temporalidade atravessa o Deuteronômio. Cada geração israelita é chamada a ser testemunha da ação de Deus e de sua Palavra. Colocado diante da Palavra de Deus, cada um é chamado a obedecer e a pôr em prática essa Palavra, guardando-a em seu coração, para que ela lhe sirva de guia para a felicidade” (Briend). No próximo número, a “Tradição Sacerdotal”.

jose valdemir
julho 18, 2010 at 12:37 am
Nobre Pe. Lucas que Deus o abençõee, proteja e ilunime nessa sua ação evangelizadora. Os textos encontrados em seus site estão sendo muito úteis apra mim, pois sou leigo e autodidata no estudo da Bíblia e tinha encontrava dificuldades para bem comprender a mensagem real do Pentateuco, quem o escrevera, por que escrevera e para quem escrevera etc.,
Na hipótese de ter havido publicações posteriores a 28 de maio de 2008, última segundo o site, fineza informar bem como da publicação das matéria em forma de livros, meio de aquisição e outros. Muita Paz.
Pedro pimentel
agosto 30, 2011 at 10:05 pm
Boa noite, padre, sua benção.
fico muito feliz por estar aprendendo muito com o que o senhor escreve.
muito obrigado!!!!