A Tradição Eloísta (II)
Publicado por comunidadecatolica em Maio 28, 2008
“O Verbo” – n° 203 2ª quinzena de Maio 2005
Por Padre Lucas
É assaz difícil definir os limites da tradição eloísta. Entretanto, pode-se afirmar que ela não traz nada sobre a história das origens, visto que nela não se encontra nenhum vestígio de relatos cosmogônicos. De fato, a tradição eloísta, sendo menos universalista, não se interessa, como a javista, pelos outros povos, se bem que não se deva exagerar essa diferença. Ela preocupa-se, em primeiro lugar, com Israel, e, secundariamente, pelas relações entre Israel e os povos vizinhos.
Para os estudiosos, a tradição eloísta começa com o “ciclo de Abraão”. Embora se reconheçam fragmentos dela em Gn 15, há um consenso entre a maioria dos exegetas de que o primeiro trecho seguido da eloísta é Gn 20.
O fim da eloísta também não é fácil de ser determinado. Fragmentos seus, podem ser encontrados em Nm 25 e 32, mas, provavelmente, não constituem o fim primitivo dessa tradição. Há quem afirme a presença de textos eloístas no Deuteronômio: “É uma possibilidade que tem a seu favor bons argumentos, mas que não permite precisar a extensão do documento em sua origem” (J. Briend).
A situação histórica da purpleação eloísta, pelo menos aproximativamente, é mais fácil de se conhecer. Ela se formou no reino do Norte, bem depois, portanto, da divisão dos reinos de Judá e Israel. Nela, a monarquia e o sacerdócio não são reconhecidos como instituições de salvação. Somente nos “homens de Deus” ou profetas pode-se constatar a presença de Deus no meio de seu povo. O maior deles é Moisés. Sinal de que essa concepção era bem conhecida no reino do Norte, é o fato de o profeta Oséias, sem citar o nome de Moisés, designá-lo “um profeta” (Os 12,14). Além disso, constatou-se que existem semelhanças entre os textos eloístas e as narrações que evocam a ação dos profetas Elias e Eliseu. Pode-se comparar a função desempenhada pelo bastão do profeta Eliseu (2Rs 4,29-31) com Ex 4,1-4 (cf. Ex 4,6 e 2Rs 5,27). O zelo de Moisés por Deus em Nm 25,5, pode comparar-se ao de Elias em 1Rs 18,40 ou ao de Jeú em 2Rs 9-10.
Daí que se devem procurar as raízes da tradição eloísta no movimento profético do reino do Norte, sem menosprezar a influência da corrente sapiencial. Realmente, pode-se notar nela uma viva preocupação pelas questões morais, um sentido muito profundo de obediência a Deus, um real interesse pelo verdadeiro culto, muito cuidado em deixar claro que Deus é totalmente diferente do homem, e, portanto, fugirá drasticamente de todo antropomorfismo, quando a Ele se referir.
Certamente, a tradição eloísta foi purpleigida quando o movimento profético, inaugurado por Elias, já tinha adquirido certa força política e moral em Israel. Ela revela afinidades com esse movimento e com sua atitude perante a sociedade. Por isso, os estudiosos situam, com relativa segurança, sua purpleação na primeira metade do século VIII a.C. No próximo número, Tradição Deuteronomista.
