TEOLOGIA BIBLICA – Por Padre Lucas Prazer

Centro Catequetico Diocesano Dom Gabriel Paulino Bueno Couto – Jundiai SP

A Tradição Sacerdotal (I)

Publicado por comunidadecatolica em Junho 10, 2008

“O Verbo” – n° 209 – Edição Especial –Catequetese – 2ª quinzena de Agosto 2005

Com a Tradição Sacerdotal, indicada pela letra “P“, do alemão Priester-kodex, “código sacerdotal”, o Pentateuco, tal como o conhecemos hoje, estará praticamente concluído. Sabemos que esse conjunto de livros se formou ao longo da caminhada do povo de Israel. É fruto, pois, de tradições orais que remontam a Moisés, mas que foram redigidas muitos anos mais tarde, em lugares diferentes e por autores (redatores) também diversos.

Vimos que o início da formação do Pentateuco se deu mediante a redação da Tradição Javista (J) e da Eloísta (E). Mais tarde, com a queda do Reino do Norte, em 722, houve, no Sul, a fusão dessas duas Tradições (J-E). Em seguida, apareceu a primeira redação do Deuteronômio (D), no tempo de Ezequias (716-687). Então, ao núcleo constituído pela fusão J-E, vem se juntar P, perto do fim do Exílio, em 538.

A história sacerdotal só se compreende em relação com o choque produzido pela queda de Jerusalém e pelo Exílio. Ora, em 587 o rei de Babilônia, Nabucodonosor, toma Jerusalém e deporta seus habitantes. Os exilados se viram atirados numa situação nova: seu rei estava preso, o templo destruído e a terra, dom de Deus, ficara para trás. Como manter a fé e a esperança no Deus de Israel, diante dos vencedores babilônios? Entre os exilados, houve quem se desencorajasse e aderisse à religião babilônica. Houve, porém, aqueles que se mantiveram firmes em sua fé e tentaram encontrar no passado de Israel motivações para uma esperança capaz de fortalecê-los. Foi o que fizeram os sacerdotes de Jerusalém exilados em Babilônia, entre os quais Ezequiel. Assim, antes do fim do Exílio (538) foi elaborada a história sacerdotal.

A Tradição Sacerdotal se empenha, pois, em procurar na herança do passado uma resposta para a seguinte pergunta: em que se apoiar para continuar a viver no meio de uma nação estrangeira sem se contaminar com sua religião e com seus ídolos? Daí, a insistência na idéia de pertença a um povo, o que explica a importância das genealogias na história Sacerdotal: trata-se de manter, por meio delas, a identidade de Israel na terra da Babilônia, a fim de evitar a dissolução do povo e permitir a Deus a realização de suas promessas.

A Tradição Sacerdotal procura interpretar o desígnio de Deus, que permite a seu povo uma situação tão adversa. Para tanto, integra a história de Israel à história da humanidade. A releitura da história passada do povo e a meditação nas promessas divinas permitiam pensar que, apesar da catástrofe de 587, a promessa de Iahweh não tinha cessado. O apelo à história patriarcal mostrava que o que se vivia no Exílio não era algo totalmente inédito: Abraão fora estrangeiro em Canaã (Gn 23). Jacó tinha apenas um pedaço de campo (Gn 33,18-22). O próprio cativeiro não é uma situação nova. No passado, os israelitas também foram cativos no Egito (Ex 1,1-5.7.13-14). Enfim, o início da história de Israel foi modesto, mas a promessa de Deus se realizou. Assim, esses poucos exemplos, extraídos das mais antigas tradições do povo, visavam iluminar a vida dos exilados do século VI. No próximo artigo, as características de “P”.

 

Padre Lucas

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