A Tradição Sacerdotal II: características principais
Publicado por comunidadecatolica em Junho 10, 2008
“O Verbo” – n° 210 –1ª quinzena de Setembro 2005
A história sacerdotal é uma grande síntese dos acontecimentos primevos de Israel, expressos mediante um estilo muito peculiar. Suas principais características são: “as narrações“, “a cronologia“, “o vocabulário“, “o estilo“, “as genealogias“, “a tradição” e “o culto e o sacerdócio“.
De fato, uma das características da história sacerdotal é a imbricação das leis nas narrações. As leis e as instituições são ligadas a acontecimentos que realçam seu valor religioso, classificando essa obra como “histórico-legal” (A. Lods). Alguns exemplos: em Gn 1,1-2,4a, são inseridas na narração duas leis: a da fecundidade e dominação (1,28) e a do sábado (2,3); em Gn 9, no final da narração do dilúvio, volta-se à lei da fecundidade (9,1) e à do respeito ao sangue; em Gn 17, está inserida a lei sobre a circuncisão (17,9-14); em Ex 12,1-13, a legislação sobre a páscoa está ligada à décima praga. E numerosos outros exemplos também podem ser encontrados nos livros do Êxodo e dos Números. O material legislativo é assim repartido dentro do quadro histórico da vida do povo.
A Tradição Sacerdotal (“P“) recorre freqüentemente ao emprego da cronologia. Os textos “P” se caracterizam pelo uso de datas tiradas de um calendário sacerdotal que não é nem o calendário usado na monarquia, nem o calendário babilônico. Os meses não são designados por nomes, mas por números (Gn 7,11; 8,13; Ex 16,1; Nm 1,1).
O vocabulário é preciso e, muitas vezes, técnico. Alguns termos técnicos são próprios de “P“, e o estilo se reconhece com relativa facilidade por ser desprovido de pitoresco. É frio e seco. O apreço pelo uso abundante de números, de enumerações, de listas, surpreende, mas está a serviço de uma teologia perfeitamente articulada.
A importância que a Tradição Sacerdotal confere às genealogias se explica pelo desejo de estabelecer continuidade entre a criação e a história, visando apresentar as raízes do povo. Preocupação legítima e bem compreensível num contexto de exílio como esse. Também o interesse pelo casamento dos patriarcas tem a mesma explicação: o casamento com estrangeiras, na Babilônia, punha em perigo o futuro de Israel.
A obra que os autores sacerdotais criaram não é fruto de pura imaginação, mas da reflexão sobre a tradição do passado. Assim, a sua narração do dilúvio retoma a narração javista e a amplia em função de sua perspectiva teológica própria. Na Tradição Sacerdotal, encontram-se muitos exemplos disso, inclusive quando se trata de textos legislativos e cultuais.
Finalmente, uma grande parte das leis e prescrições é consagrada à organização do culto. Isso se constata facilmente lendo os capítulos do Êxodo que tratam da construção do santuário e das normas relativas ao sacerdócio (Ex 25-31 e 35-40). “Outro indício dessa importância é o lugar de Aarão ao lado de Moisés; descobre-se que a instituição principal para a existência do povo é o sacerdócio. A leitura do Êxodo e de Números mostra-o claramente” (J. Briend). No próximo número: a teologia da Tradição Sacerdotal.
Padre Lucas
