TEOLOGIA BIBLICA – Por Padre Lucas Prazer

Centro Catequetico Diocesano Dom Gabriel Paulino Bueno Couto – Jundiai SP

A Tradição Sacerdotal III: A Teologia de “P”

Publicado por comunidadecatolica em Junho 10, 2008

“O Verbo” – n° 211 – Edição Especial – Bens Culturais da Igreja – 2ª quinzena de Setembro 2005

A origem do material da Tradição Sacertotal (“P”) é muito variada. É possível distinguir nela elementos legislativos ou baseados em costumes do povo. Afirma-se que a compreensão da mensagem de “P” se encontra na fórmula da seguinte bênção: Deus os abençoou, dizendo-lhes: Reproduzi-vos e multiplicai-vos e povoai a terra, submetei-a e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre os animais que se movem sobre a terra (Gn 1,28).

 

Para a Tradição Sacerdotal, os cinco verbos dessa bênção constituem a base de sua fé. Tal bênção é uma afirmação ousada e todo-poderosa pela qual Deus manifesta claramente Sua intenção em relação à humanidade.

A forma imperativa dos verbos (reproduzi-vos, multiplicai-vos, povoai, submetei e dominai) não significa que sejam mais ordens do que autorizações que habilitam os povos a crer e a agir em vista do futuro. Deus reivindica, com essa bênção, Sua soberania sobre toda a criação, que acabara de tirar do caos. Compreende-se melhor ainda o sentido dessa bênção divina vendo-se nela como que uma refutação da situação concreta, de verdadeiro caos, que o povo está vivenciando no Exílio. De fato, essa proclamação positiva se aplica de modo impressionante a um povo exilado, que se vê sem raízes, longe de sua terra e em vias de perder a fé em Deus.

Encontramos essa fórmula também nas narrações do dilúvio: primeiro, para os pássaros e animais (Gn 8,17= 1,22); mas principalmente para Noé e seus filhos (9,1) e para o homem feito à imagem de Deus (9,7). Os exilados podiam vislumbrar aí, uma alusão ao retorno ao seu país. Outro texto, que reforça a mesma idéia, diz respeito às palavras de Deus a propósito de Ismael (17,20) que confirmam o que Deus quer fazer por meio de Isaac, segundo a promessa feita a Abraão (17,2-4).

A mesma fórmula reaparece quando se narra o casamento de Jacó (28,1-4), que serve também para fundamentar a esperança na posse da terra (28,4). A mesma promessa se repete em 35,11ss, onde os exilados podem ver que a Palavra de Deus continua válida também para eles.

Assim, constata-se que a fórmula da bênção perpassa toda a história sacerdotal. De fato, para os exilados em Babilônia, a meditação sobre as suas origens oferecia sólido fundamento para sua fé. Entretanto, “a expressão mais completa da fórmula da bênção se encontra em Gn 1,1- 2,4a, e dela derivam todos os seus empregos subseqüentes (…). Com isso se compreende que a principal preocupação do escrito sacerdotal se orienta para o futuro, isto é, para o tempo no qual a terra será, então, reativada” (J. Briend).

Dessa forma, o todo desses relatos está ligado por uma vigorosa teologia da esperança. A história sacerdotal está, pois, em tensão entre a tradição do passado e a situação do presente. Por isso, colhe subsídios em uma profissão de fé em torno da qual foi composto o Pentateuco. Nosso próximo tema: “A Lei de Santidade (Lv 17-26)”.

 

Padre Lucas

 

 

 

 

 

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