Introdução geral ao Livro do Gênesis (I)
Publicado por comunidadecatolica em Junho 10, 2008
“O Verbo” – n° 220 – Especial Campanha da Fraternidade – 2ª quinzena de Fevereiro 2006
O Gênesis, primeiro livro do Pentateuco e de toda a Escritura, recebeu esse nome quando da sua tradução ao idioma grego, por começar abordando as origens do mundo. No original hebraico, porém, e ainda hoje, os judeus o denominam pela primeira palavra de seu texto: “No princípio” (“Bereshit”, em hebraico). “O motivo imediato do nome, ‘Gênesis’, porém, foi a narrativa da criação com que o livro começa: a fórmula tõledõt (2,4), que resume essa narrativa, foi traduzida por ‘gênesis’, sob influxo de Gn 5,1. Pela tradução latina, a ‘Vulgata’, o nome ‘Gênesis’ tornou-se comum também no Ocidente” (Van den Born).
De fato, o livro do Gênesis narra uma série de histórias das origens, em diversos planos. Em plano mais amplo, Gn 1-11, traz um relato que abrange toda a humanidade: a criação do mundo e do gênero humano e suas peripécias: de Adão até Abraão, isto é; do ancestral da humanidade até o ancestral de Israel. Num plano mais nacionalista, Gn 12-50 aborda a história primeva de Israel: do patriarca Abraão aos 12 filhos de Jacó, nos quais Israel pode reconhecer claramente a sua própria proveniência. Neste contexto, são inseridas as histórias das origens de numerosos fenômenos de ordem natural e cultural, de costumes religiosos e sociais, bem como de situações de ordem política, etnológica e geográfica.
O relato das origens abrange seis narrativas ou cenas: “os seis dias da Criação”, ou o ‘hexaemeron’, (1,1-24a); o paraíso e o pecado (2,4b-3,24); o primeiro fratricídio (4,1-16); o dilúvio e a aliança de Noé (6,1-9,17); a maldição e bênção de Noé (9,8-29); a torre de Babel (11,1-9). Essas narrativas ou cenas formam um conjunto coerente, ligado entre si pelas quatro genealogias: Caim (4,17-24), Set (4,25-5,32), “tábua das nações” (10) e semitas (11,10-26). A história dos patriarcas divide-se em três grupos de narrativas: sobre Abraão (12-25), Isaac (26), Jacó [27-35 e Esaú (36)] e José [37-50; Judá (38)]; seus principais personagens.
A redação final do Gênesis deu-se em ambiente sacerdotal judaico (Tradição P), após o cativeiro na Babilônia (586 a.C.). Essa redação, entretanto, cristalizou-se, provavelmente, a partir de um escrito herdado do passado, sintetizando tradições orais. A síntese “Javista” (J) reflete a unificação nacional realizada desde o rei Davi. Certos acréscimos (a partir do capítulo 20) devem-se talvez a uma síntese independente, “Eloísta” (E), mas pensa-se também num processo de crescimento dentro da Tradição J. Em todo caso, o material das narrativas foi manipulado por uma longa tradição. A “Javista” parte da descrição do paraíso, mostrando como o pecado trouxe maldição sobre o ser humano, maldição que culmina com o dilúvio e com a “confusão das línguas”, mas é contrabalançada pelas bênçãos sobre Noé, Sem e sua posteridade.
A compilação final de P faz do livro do Gênesis um todo sistemático, conferindo, pois, à antiga narrativa, uma perspectiva humana universal: o “caos” torna-se “cosmo”, mas esse, pelo pecado, transforma-se novamente em “caos” (dilúvio). Finalmente, surge uma nova humanidade, em Noé, com a qual Deus conclui uma aliança, que será confirmada e mais desenvolvida em Abraão.
Padre Lucas
