Como interpretar Gn 1-11 (I)
Publicado por comunidadecatolica em Julho 17, 2008
“O Verbo” – n° 222 – 2ª quinzena de Março 2006
O desenvolvimento dos estudos bíblicos, bem como o grande avanço científico do mundo moderno – embora já tivessem suscitado uma posição do Magistério, por meio das Encíclicas Spiritus Paraclitus, do Papa Bento XV, em 1920, e Divino afflante Spiritu, de Pio XII, em 1943 – levaram, em meados do século passado, o cardeal Suhard, então arcebispo de Paris, a escrever ao Papa Pio XII e à Pontifícia Comissão Bíblica, indagando sobre a correta interpretação de Gn 1-11. Ora, a referida Comissão respondeu prontamente ao cardeal, em oito questões, sobre o caráter histórico desses capítulos, as quais apresentaremos a seguir, e Pio XII aprofundou-as na célebre Encíclica Humani Generis (em 1950).
Em linhas gerais, a resposta da Comissão Bíblica pode ser assim sintetizada: dado o múltiplo testemunho das Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, bem como no ensino quase unânime dos Santos Padres e ainda no sentido tradicional, transmitido ao povo israelita e aceito pela Igreja, deve-se ensinar que, quanto ao conteúdo, esses capítulos contêm a narração de fatos deveras acontecidos, ou seja, correspondem à verdade objetiva e à realidade histórica. Entretanto, em sua forma (gênero literário) são adequados, como não poderia deixar ser, à mentalidade e concepção da época em que foram redigidos. Utilizam-se neles, portanto, alegorias, símbolos e lendas, em parte históricas e em parte fictícias, com o objetivo de inculcar verdades de cunho essencialmente religioso, teológico e moral, para o fortalecimento da fé e a edificação dos espíritos.
Contudo, o sentido literal histórico não pode ser posto em dúvida, pois seu conteúdo histórico refere-se aos fundamentos da fé cristã, a saber: a criação de todas as coisas por Deus; a criação especial do homem e da mulher em igual condição, valor e dignidade; a felicidade original dos progenitores, no estado de justiça, integridade e imortalidade; o preceito divino dado a eles para experimentar-lhes a obediência; sua transgressão, instigada pelo Maligno, e a perda daquele estado primitivo de inocência; bem como a promessa do futuro Salvador.
Bem mais obscura e complexa é a questão referente às suas formas literárias. Acerca delas ensina a Humani Generis: “não correspondem a nenhuma de nossas categorias clássicas (…) e não se podem julgar segundo o padrão dos gêneros literários greco-latinos ou modernos. Podemos aceitar que esses capítulos não formam uma história no sentido clássico e moderno (…). O primeiro encargo da exegese científica, neste ponto, consiste, sobretudo, no atento estudo de todos os problemas literários, científicos, históricos, culturais e religiosos que se relacionam com esses capítulos. Seria preciso examinar mais de perto os processos literários dos antigos povos do Oriente, sua psicologia, sua maneira de exprimir-se e a noção mesma que eles formavam da verdade histórica. Numa palavra, seria necessário reunir, sem preconceitos, todo o material científico, paleontológico e histórico, epigráfico e literário. Somente assim é possível esperar conseguir maior clareza em certas narrações dos primeiros capítulos do Gênesis”. Pois esses textos “de fato referem, numa linguagem simples e figurada, adequada à mente duma humanidade pouco evoluída, as verdades fundamentais pressupostas pela economia da salvação, e dão, ao mesmo tempo, uma descrição popular das origens do gênero humano e do povo eleito” (AAS 40, 1948, 45-48; ED 581).
Pe. Lucas
