Como interpretar Gn 1-11 (II)
Publicado por comunidadecatolica em Julho 17, 2008
“O Verbo” – n° 223 – 1ª quinzena de Abril 2006
No artigo anterior, começamos a abordar os onze primeiros capítulos do Gênesis. Apoiados no ensino do Magistério, constatamos que neles se encontram elementos essenciais da Revelação.
De fato, quanto ao conteúdo, se referem a acontecimentos verdadeiramente históricos. Entretanto, na forma literária, como não poderia deixar de ser, utilizam-se os conhecimentos e o modo de se expressar então vigente. Portanto, para uma compreensão mais acurada desses textos, faz-se mister conhecer o tipo de literatura que empregam e investigar a sua origem, o tempo em que foram escritos, bem como seu provável autor, e o motivo que o levou a redigir esses fatos. É o que pretendemos apresentar a partir deste artigo.
Sabemos que, embora sejam as primeiras páginas da Escritura, esses textos foram escritos bem mais tarde, em relação a outros textos da Bíblia. Ninguém presenciou a origem do universo e do ser humano. Os acontecimentos a que se referem nasceu da experiência da fé do povo de Deus e do seu contato com a cultura de povos vizinhos, pois todos sempre nutriram não pequena curiosidade acerca das origens do mundo e da vida humana. Assim, surgiram na antiguidade muitas cosmogonias, ou seja, explicações para a gênese do cosmo e da humanidade.
Israel conheceu essas explicações e, à luz de sua fé, iluminado pelo Espírito divino, as adaptou para transmitir a mensagem a respeito de Deus e do Seu desígnio para com os seres humanos. Durante muitos séculos, tudo isso foi transmitido oralmente, de geração em geração. Somente mais tarde é que foram registradas graficamente.
Seus autores humanos nos são desconhecidos. Sabemos, entretanto, que, na época da monarquia em Israel, é que se começou a redigir a Escritura. Provavelmente no reinado de Salomão (950 a.C.), surgiram alguns desses capítulos em questão. São os que pertencem à “Tradição Javista” (J). Outros, oriundos do Norte, cerca de 200 anos mais tarde, pertencem à “Eloísta” (E). Durante o Exílio na Babilônia (587 a.C.), os sacerdotes (P) revisaram esses escritos e, inspirados por Deus, os completaram e os aprofundaram e também produziram outros novos (recomendamos ter sempre presente os dados sobre as “Tradições” já apresentados nos artigos anteriores). Sábios judeus, de volta à sua terra, após o fim do Cativeiro, deram o retoque final a esses capítulos. Portanto, segundo a pesquisa científica, sua redação é o resultado de um longo processo, que abrangeu, aproximadamente, cerca de quinhentos anos.
Esses capítulos não foram pensados para ser debatidos em academias científicas, para ver quem tem razão: a ciência ou a Escritura. Foram escritos com o objetivo único de fortalecer a fé do povo no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Ora, a investigação sobre o modo como tenha ocorrido a formação do Cosmos e da vida no universo é de domínio exclusivo da Ciência e não da fé. À fé compete afirmar o sentido pleno e teológico da criação e, neste aspecto, Gn 1-11 responde às questões que sempre se impuseram ao ser humano: Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Por que trabalhar? Por que o sofrimento? Por que alguns homens dominam outros? Por que há morte?
(Continua…).
Padre Lucas
