Como interpretar GN 1-11 (IV)
Publicado por comunidadecatolica em Setembro 1, 2008
“O Verbo” – n° 226 – 2ª quinzena de Maio 2006
Vimos, no artigo anterior, que os relatos da criação (Gn 1-2,4a e 2,4b-25) se baseiam, como não poderia deixar de ser, numa visão ainda muito primitiva do Cosmo, apoiada, apenas, na mera observação ocular e nas lendas que conheciam. Já insistimos que não pretendem descrever um acontecimento histórico no sentido moderno dessa ciência, mas oferecer uma visão de fé que explicite o sentido pleno do universo e da vida sobre a Terra, e se fundamentam na experiência da Aliança.
Comecemos pelo relato da criação de Gn 1- 2,4a. Sabemos que se trata de um texto atribuído à Tradição Sacerdotal. É, pois, mais recente que 2,4b-25, redigido séculos antes, no tempo da Monarquia. No entanto, inspirados por Deus, os sábios que fizeram a compilação final do Pentateuco, julgaram por bem colocar o relato Sacerdotal como que uma introdução a todo esse conjunto de escritos.
Gênesis 1-2,4a foi redigido no Exílio babilônico, no século VI a.C; este dado dificilmente será questionado. Tal certeza apóia-se em dois sólidos argumentos: o papel de destaque desempenhado pelo dia de sábado bem como a referência à criação divina dos astros, da luz, do sol e da lua que, para os babilônicos, eram considerados divindades. Ora, sabemos que, embora o sábado constitua uma tradição assaz antiga, que remonta à época em que o povo vivia em tribos (Ex 23,12-13), foi em meio ao contexto babilônico que veio a se tornar um sinal diferenciador, identificando os deportados. Também a criação dos astros nos remete diretamente à Babilônia, onde, sob os últimos soberanos, acirrava-se a polêmica em torno das divindades da luz. Para uns, a lua ou as estrelas significavam mais, ao passo que outros preferiam o deus sol. E era grande a rivalidade entre eles.
Por trás desse relato, encontra-se a dolorosa experiência do Exílio: são pessoas deportadas, desenraizadas e muito sofridas que se expressam por meio desse capítulo. Muitas vezes, hostilizadas, sob o controle do exército inimigo, assentadas em territórios despovoados (Ez 3,15), consideravam-se escravas (Is 42,1), e, “às margens dos canais da Babilônia, choram de saudades de Sião” (Sl 137,1). Portanto, são pessoas submetidas ao trabalho forçado, que servem aos interesses de um Estado estrangeiro. Enfim, trata-se de um povo humilhado, massacrado, espoliado pelo imperialismo babilônico.
Por isso, “ao recitar Gênesis 1, torna-se, pois, imprescindível incorporar, como pano de fundo, os gemidos e as dores de gente escravizada e sugada ao máximo para a glória do império. A interpretação precisa situar esta poesia neste conflito!” (M. Schuwantes). Sabemos, entretanto, que esses exilados, na sua maioria, antes de irem para a Babilônia, pertenciam à elite de Jerusalém; nasceram na opulência, e possuíam o poder de mando no Estado de Judá. Certamente, daí provém a linguagem imponente e solene e, também, o saber reunido nesse capítulo.
Assim, no Exílio, surge uma grande novidade: acontece uma reviravolta na vida dessa elite palaciana de Jerusalém. Ela que, em sua terra, oprimia e fazia calar a voz inoportuna dos seus profetas, agora, longe do templo, e despojada de suas seguranças, convertera-se, ela mesma, à categoria de profeta. Doravante, servir-se-á, pois, de seu saber e cultura para denunciar os excessos dos seus opressores. No próximo número: “A Teologia de Gn 1-2,4a”.
Padre Lucas
