TEOLOGIA BIBLICA – Por Padre Lucas Prazer

Centro Catequetico Diocesano Dom Gabriel Paulino Bueno Couto – Jundiai SP

Teologia de Gn 1,1-2,4a (VI)

Publicado por comunidadecatolica em Setembro 1, 2008

“O Verbo” – n° 233 – Especial – Fórum Eleições 2006 –

1ª quinzena de Setembro 2006

No artigo anterior, concluímos a série de quatro obras criadas nos três primeiros dias (Gn 1,3-13), e que indicam a “criação dos espaços”. Santo Tomás de Aquino (séc. XIII) faz uma distinção entre essas obras – “o céu, a terra e todo seu exército”-, às quais denomina opus distinctionis, por se referir “àquilo que se acha firme”, e às seguintes, opus ornatus (Gn 1,14-31), aquilo que e se move dentro desses “espaços” (Summa Theol. I, q.70, a.1).

Hoje, abordaremos a quinta obra: Deus disse: ‘Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite (…). Deus fez os dois luzeiros maiores; o grande luzeiro como poder do dia e o pequeno luzeiro como poder da noite, e as estrelas (…). Houve uma tarde e uma manhã: quarto dia (Gn 1,14-19).

 

Essa obra é o complemento da primeira, da qual é paralela. No esquema dos sete dias, tornam-se dois momentos muito importantes: o início, v.3 (criação da luz), e o centro, v. 14ss. (criação dos astros e estrelas). Isso denota a importância da temática da luz e dos astros para a teologia desse poema.

 

Nos espaços da luz e das trevas são colocados respectivamente os objetos luminosos do dia e da noite: ‘Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite (v.14a): Não é certo se o autor quer aludir à causa da separação (a luz solar), dado que já no primeiro dia ocorre a separação entre o dia e a noite, ou, então, se quer apenas significar que os astros respectivos assinalam o “dia”, tempo luminoso, e a “noite”, tempo tenebroso. Ainda se acreditava que o suceder-se da luz e das trevas era dependente da luz solar.

 

A grande preocupação do poema, sem dúvida, é com a influência da religião babilônica sobre os hebreus exilados. De fato, no Império Babilônico, “os símbolos maiores de sua crença oficial eram os astros. Estes eram divindades. Na capital, o santuário central estava dedicado ao sol. Por conseguinte, todo o Império se entendia como representante do sol. Seu exército que massacrava o mundo fazia-se passar por embaixador da divindade celeste. Para poder enfrentar esta maquinária militar e imperial, era, pois, necessário desautorizar o sol como divindade” (M. Schwantes). Por isso, fala-se em luzeiro grande (1,16); o sol não é designado por seu nome próprio, por ser o nome da divindade Sarnaš: para evitar equívocos, trata-se de um luzeiro (mã’ôr) e não de uma divindade! Analogamente quanto à lua, o luzeiro pequeno (1,16), cujo nome se evita pelo mesmo motivo: existia também a deusa Lua, Yerah: “A divinização dos astros era tão tentadora, que o autor deve ainda lhes reconhecer um papel de ‘poderes’” (R. de Vaux).

 

Portanto, o texto assevera que sol, lua e estrelas não são deuses, mas criação de Iahweh, o único Deus. Ele criou, já no primeiro dia, a luz, independente dos astros, quando ainda não havia astro nenhum. Neste sentido, os astros não geram luz, apenas a repassam. Trata-se de uma teologia arrojada e potente, que almejava combater definitivamente a deificação dos astros. Assim, o poema alcança um grau ímpar de abstração para a mentalidade semítica. Não sendo os astros deuses, ruía todo o edifício religioso que dava ares sagrados ao Império Babilônico. Dessa forma, o exilado hebreu era fortalecido em sua fé javista, e podia resistir à sedutora idolatria estrangeira.

 

Padre Lucas

 

 

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