Teologia de Gn 1,1-2,4a (X)
Publicado por comunidadecatolica em Setembro 1, 2008
“O Verbo” – n° 239 – 1ª quinzena de Dezembro 2006
No artigo anterior, abordamos o “sexto dia” (Gn 1,27-31), no qual se deu a criação do ser humano (homem e mulher, Deus os criou), obra prima de Deus. Os versículos que serão analisados hoje (Gn 2,1-4a) são a conclusão desse relato, unanimemente atribuído, conforme já mencionamos, à Tradição Sacerdotal.
Assim foram concluídos o céu e a terra, com todo o seu exército. Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou, depois de toda obra que fizera. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele descansou depois de toda a sua obra de criação. Essa é a história do céu e da terra, quando foram criados.
Com todo o seu exército: sem dúvida quer acentuar a criação de tudo o que se move dentro dos espaços celestes e terrestres criados por Deus. Dessa forma, salienta-se que tudo o que se desloca, fervilha, rasteja ou caminha nesses espaços é obra do único e mesmo Deus.
Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera. O Texto Samaritano e os LXX, seguidos por muitos críticos modernos, traduziram no sexto dia, por não parecer exata a tradução no sétimo dia. Entretanto, o sexto dia, já fora concluído em Gn 1,31. E a idéia do término de toda a obra divina já se encontra claramente expressa em Gn 2,1: Assim foram concluídos o céu e a terra… De fato, agora se trata do sétimo dia, que, nesse contexto, se repete por três vezes (duas, em Gn 2,2 e uma em 2,3). Isso equivale a afirmar que o mundo estava acabado no sexto dia, não porque se esgotara o poder divino, mas porque Ele decidira não criar nada mais.
E no sétimo dia descansou. A idéia antropormórfica do repouso divino é apresentada como protótipo do descanso humano. Todo esse capítulo parece culminar no sétimo dia, ou sábado. E isso não é mero acaso. Trata-se de algo intencional: o hagiógrafo enfatiza o sétimo dia, porque os opressores babilônicos – sabemos que esse capítulo nasceu no Exílio – não adotavam o calendário semanal. Suas festas derivavam-se do ritmo lunar, “e eram, se muito, quinzenais. E, por outro lado, o trabalho forçado, imposto pelos opressores, exigia atividade contínua, sem dias de festa e sem descanso (…). Gênesis 1 celebra o motivo mais profundo do sábado. Este se encontra no próprio Deus (Deus abençoou o sétimo dia!): quem pára no sábado, participa do ser e agir de Deus. Negar-se ao trabalho, ao menos num dia, é corresponder ao Criador (…). Nas circunstâncias do Exílio, o sábado era, antes de mais nada, uma necessidade concreta. É efetivamente descanso para as mãos e para o corpo. É espaço em que caem as algemas… A escravidão destrói o corpo. Traz morte precoce…. É, pois, vital lutar por um espaço para que o corpo descanse… O descanso puxa a memória. Correm as lembranças a respeito dos tempos passados, em Jerusalém. Pergunta-se: “por que estamos aqui no desterro?’(…) Gênesis 1 é, pois, uma liturgia que fomenta a exigência pelo sábado, como dia de descanso do corpo, da organização do povo, do cultivo da memória” (M. Schwantes).
Padre Lucas
