Teologia de Gn 1,1-2,4a
Publicado por comunidadecatolica em Setembro 1, 2008
“O Verbo” – n° 227 – Especial Missões em Marabá
A história de Gn 1,1-2,4a forma o prólogo do Pentateuco e é uma das páginas mais encantadoras de todo o Antigo Testamento. É totalmente didático e de expressivo conteúdo teológico e catequético. Entretanto, não tem o estilo da prosa habitual, e é profundamente poético. Utilizam-se frases imponentes, solenes, com muito ritmo e harmonia. Possui sete estrofes intercaladas por um belíssimo refrão que se repete por seis vezes: “Houve uma tarde e uma manhã…” (vv. 5, 8, 13, 19, 23 e 31). Cada uma de suas partes é estudada nas relações com o conjunto, provavelmente, para ser retida na memória. De fato, há quem afirme que terá sido repetido na liturgia: “Na assembléia do povo, esse capítulo terá sido recitado, talvez até em responsório, entoado pelos que presidiam a reunião” (M. Schwantes).
A unidade desse capítulo faz-se utilizando um artifício que consiste, em primeiro lugar, no fato de o processo criativo, precedido duma introdução (1,l-2) e seguido por uma conclusão (2,1-4a), ser apresentado em oito quadros, descrevendo cada um deles uma obra da criação em termos semelhantes.
Assim, a narração das oito obras é feita mediante algumas fórmulas que se repetem invariavelmente em quase todas elas, enquanto varia a parte que descreve cada obra em particular. Esta, por sua vez, se subdivide, também, em cada quadro, em dois tempos: ordem e execução.
Essa sucessão de oito obras, com a mesma fórmula, visa, provavelmente, o efeito final, isto é, destacar a última obra, na qual se evidencia um desenvolvimento mais amplo e elevado: a criação do ser humano como “coroa” de toda a obra divina.
Em segundo lugar, o artifício dispõe as oito obras em duas séries paralelas de quatro cada uma, de sorte que as obras da primeira série apresentam a criação dos espaços, enquanto as obras da segunda série descrevem a criação dos seres que se movimentam e que se acham reunidos nos respectivos espaços.
Assim, as obras se correspondem e se complementam mutuamente, duas a duas. De fato, à primeira, a “luz” (v. 3), corresponde a quinta obra da criação, “astros e estrelas (vv. 14-18); à segunda, “o céu” (vv. 6-8), corresponde a sexta obra, “aves, peixes, répteis (vv. 20-23); à terceira obra, “terra e mar” (vv. 9-13), corresponde a sétima, “os animais” (vv. 24-25); à quarta, “verduras, árvores, sementes e frutos” (vv. 11-13), corresponde a oitava obra, o ser humano (vv. 26-31). Essa última correspondência não é perfeita, sendo a última obra, a criação do homem, algo totalmente novo e extraordinário.
Finalmente, um terceiro artifício consiste em distribuir as oito obras em seis dias, uma para cada dia, mas duas no terceiro e, igualmente, no sexto. O sétimo dia se acha na conclusão. Sobre a objetividade ou não desses dias, referir-nos-emos oportunamente. (Continua…)
Padre Lucas
