TEOLOGIA BIBLICA – Por Padre Lucas Prazer

Centro Catequetico Diocesano Dom Gabriel Paulino Bueno Couto – Jundiai SP

Teologia de Gn 1,1-2,4a(IX/2)

Publicado por comunidadecatolica em Setembro 1, 2008

“O Verbo” – n° 237 – Especial Mãe Rainha Schoenstatt –

1ª quinzena de Novembro 2006

 

No texto anterior, começamos abordar a “oitava obra”: o ser humano. Analisamos Gn 1,26a; foi a primeira parte deste artigo. Hoje, abordaremos Gn 1,26bc: E domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra.

Como “imagem de Deus”, o homem está colocado bem acima de todas as criaturas, mas a sua própria dignidade de pessoa lhe impõe também um limite superior. Dessa forma, a “semelhança” com Deus é aquele algo no ser humano que o faz superior aos animais, dá-lhe o direito de dominá-los. Nesse texto, o que surpreende é a intensidade das expressões que descrevem o relacionamento de superioridade humana diante dos demais seres. De fato, os verbos “pisar”, “submeter”, “dominar” (kâvâsch, râdâh) são deveras intensos. Lembremo-nos que, no Exílio, o grande perigo para Israel era aderir à idolatria pagã e, nos cultos politeístas, muitos animais e elementos da natureza eram divinizados. Daí a ênfase na superioridade do ser humano em relação aos demais seres criados.

 

Contudo, não podemos entender esse “domínio” no sentido de “poder” absoluto sobre a criação, mas que o homem deve administrar sabiamente todos os bens criados. O direito de dominar não inclui certamente o direito de destruir a natureza, sacrificar e matar os animais. No relato Sacerdotal, de acordo com a vontade criadora de Iahweh, os vegetais são o alimento tanto do homem como dos animais (Gn 1,29-30).

 

Ao ser humano foi confiada a administração da Terra e dos seres. Isso equivale a afirmar que ele deve exercer seu papel de acordo com os desígnios do Criador. O homem não é senhor do mundo, mas colaborador de Deus. Portanto, não tem licença para manipular, destruir ou explorar irracionalmente os bens criados. É o que sabiamente ensina a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II: Com efeito, o homem, criado à imagem de Deus, recebeu a missão de submeter a terra com tudo o que nela existe, de governar o mundo em justiça e santidade e, reconhecendo a Deus como o Criador de tudo, orientar para Ele o seu ser e tudo o mais, de maneira que, com a submissão de todas as coisas ao homem, o nome de Deus seja glorificado na terra (n. 34).

 

Assim, Deus colocou o ser humano no mundo como sinal de Sua soberania, para guardar e executar Seus direitos de Senhor. Ora, os grandes reis terrestres tinham também o hábito de levantar em seus impérios estátuas que os representavam, como sinais de sua majestade. Mas, o povo de Deus entendeu que a soberania divina se estende a toda a terra e não se limita unicamente aos animais. Foi nesse sentido que Israel considerou o homem como mandatário de Deus. Nesse texto, os animais são ainda mencionados porque somente eles poderiam ser rivais do homem e fazer-lhe concorrência; por isso lhe são expressamente submetidos.

 

Por tanto, o elemento fundamental da “imagem de Deus” é a função do homem para com o mundo. Além de vir de Deus, a criação é dotada, pela “semelhança” divina do homem, de uma certa finalidade que a ordena a Deus.

 

Padre Lucas

 

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