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II – NOÇÕES BÁSICAS PARA UM ESTUDO CIENTÍFICO DA BÍBLIA

17 abr

“O Verbo” – n° 184 – 2ª quinzena de Julho 2004

Por Padre Lucas

No artigo anterior, assinalamos as duas maneiras de se ler a Bíblia: a ingênua ou fundamentalista e a crítica ou científica. Hoje iniciaremos a abordagem das noções básicas para um estudo da Bíblia.

 Comecemos pela Inspiração: trata-se de um carisma (dom de Deus), mediante o qual Deus, iluminando a mente do autor (hagiógrafo), lhe comunica sua Palavra. Contudo, não se trata de algo mágico, onde o autor age inconscientemente. O carisma da Inspiração não suplanta seus conhecimentos, sua habilidade de escritor, sua personalidade. A Inspiração é o produto de uma parceria entre Deus e o hagiógrafo: tudo é, simultaneamente, obra de Deus e do homem.

Sabemos que a Bíblia não caiu pronta do céu, mas foi produzida, gerada, escrita no solo fecundo do povo e da cultura de Israel. O carisma da Inspiração, portanto, não se deu de uma hora para outra. Antes de ser escrita, a Bíblia foi, primeiramente, vivida e celebrada nas liturgias do povo de Deus. Daí que a Inspiração é fruto de um longo processo, que pode ser didaticamente dividido em três etapas. À primeira dá-se o nome de Inspiração Pastoral. Trata-se de um fato histórico, de uma intervenção de Deus, mediante um líder, pastor ou profeta, para realizar um ato de libertação para o povo eleito. Por exemplo: no Êxodo, Deus, segundo o texto bíblico, libertou os hebreus, mediante a ação de Moisés. Este fato histórico é o início da Inspiração, sua primeira etapa. Posteriormente, esse mesmo fato será celebrado e narrado às gerações vindouras; ser-lhes-á transmitido oralmente. Essa narrativa é chamada de Inspiração Oral ou Profética, pois se trata da transmissão verbal, da pregação, do anúncio da ação de Deus. Finalmente, esse fato histórico, narrado e celebrado, é grafado, escrito, ao que damos, evidentemente, o nome de Inspiração Escriturística.

Contudo, não se pode precisar com exatidão o tempo necessário para o desenvolvimento de cada uma dessas etapas, nem a distância entre elas. Verdade é que entre a fase inicial (Fato) e a final (Escrita), na maioria dos casos, foram precisos muitos anos (e até séculos!). Para uma leitura crítica da Bíblia, precisamos, pois, ter sempre presente que ela não é obra de um só autor, nem se trata de um relato exato dos fatos como se deram. Ela é fruto de toda uma experiência, vivida e celebrada. Por trás de cada página da Bíblia há toda uma caminhada de fé vivenciada e comemorada. Na Bíblia, os fatos históricos são narrados, muitas vezes, mediante uma linguagem simbólica, a serviço da liturgia, da celebração, da fé. A Bíblia não é um livro de História no sentido moderno dessa ciência. Seu objetivo principal é o de suscitar a fé, fortalecer a fé, aprofundar a fé. Daí que não podemos interpretar ao pé da letra certas afirmações bíblicas de caráter eminentemente simbólico e teológico.

Agradeço às numerosas mensagens de apoio enviadas por e-mail

 pe_lucas@ig.com.br.

Nosso próximo tema: A Revelação na Bíblia.

 

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