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Os gêneros literários da Bíblia (III)

18 abr

“O Verbo” – n° 190 – 2ª quinzena de Outubro 2004

No estudo dos Gêneros literários da Bíblia, recomenda-se, vivamente, que se levem em consideração certas formas de expressão muito comuns ao homem bíblico, como os “relatos etiológicos“, o “midrach” e o “simbolismo numérico“. Etiologia é a interpretação ou a explicação da origem de um fenômeno, de uma festa, de um rito, do nome de um lugar, ou de um costume do povo. Trata-se de encontrar em acontecimentos do passado a causa de experiências e de fatos do presente.

Em Israel, os relatos de etiologias surgiram, sobretudo, diante de situações de conflito e sofrimento, às quais a fé não dispunha de nenhuma informação para explicá-las e compreendê-las, daí recorrer a esse tipo de relatos para as interpretar, explicar e, de certa forma, as assimilar. As etiologias são, freqüentemente, determinadas por uma motivação “histórico-salvificante, pela qual se tenta aclarar a tensão entre um Deus bom e o mundo insuficiente com sua maldade, sofrimento e mortalidade do homem” (A. Läpple). O pensamento etiológico não se enraíza, pois, na mera curiosidade, no desejo de encontrar uma explicação lógica para certas expressões da vida e do culto popular, mas no desejo de se encontrar uma resposta, à luz da fé, para as mazelas inerentes à condição humana.

Os relatos etiológicos podem ser classificados segundo seu objetivo. Quando têm a intenção de explicar as relações de amor ou de ódio entre Israel e outro povo, denominam-se etiologias etnológicas: mediante genealogias artificiais, demonstra-se que o sentimento ora nutrido pelos israelitas em relação a outro povo tem sua origem numa aliança ou num desentendimento no passado com algum membro ilustre daquele povo.

Recorre-se à tiologia etimológica para explicar – mediante um vocábulo hebraico que soa de maneira semelhante – uma palavra de origem estrangeira cujo sentido original se perdeu. Portanto, basta uma simples afinidade eufônica para se registrar a origem de uma palavra. Um exemplo disso encontra-se em Gn 11,9, com a relação que se estabelece entre “Babel” e “Babilônia”, para se explicar a diversidade das línguas como conseqüência do orgulho e da vaidade humana.

Outra espécie de etiologia é a geográfica ou geológica. Trata-se de explicações para o nome de um lugar: “Fonte amarga” = Mara (Ex 15,22-25); “Contenda” = Meribá (Nm 20,2-13); “Vale da Uva” = Eskol (Nm 13,24-25); “Extermínio” = Hormá (Nm 21,1-13).

Há, ainda, a etiologia cultural-religiosa utilizada para explicar a origem divina e o sentido de certos costumes religiosos (circuncisão, santificação do sábado etc.) e de certas leis alimentares (não comer carne suína e sangue etc.).

Finalmente, as etiologias antropológicas, que visam explicar teologicamente realidades da existência humana como a dor, o sofrimento e a morte como conseqüências do julgamento punitivo de Deus. No próximo número: o midrach.

 

Padre Lucas

 

 

 

 

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Publicado por em abril 18, 2008 em Biblia, Estudo Biblico

 

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