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As “tradições” literárias do Pentateuco: a “Javista”

23 abr

“O Verbo” – n° 201 – Edição Histórica – Papa Bento XVI – 2ª quinzena de Abril 2005

Quanto à formação do Pentateuco, vimos que muitos exegetas modernos – críticos de J. Wellhausen – já não falam mais de “Documentos”, mas de “Tradições”. Todavia, ao longo da história, mesmo depois de sua composição literária, essas tradições receberam numerosas modificações. Assim sendo, deve-se considerar alguns dos “escritores da Bíblia” mais como autores do que meros compiladores dessas tradições. Esses autores deixaram traços de caráter complexo das tradições pré-literárias em sua obra. Por isso, alguns estudiosos falam em “escolas”, mais do que “documentos” e “escritores”; outros, como Roland de Vaux, preferem chamá-las simplesmente de “tradições”, sem afirmar sua origem oral ou literária. Embora não haja consenso entre os estudiosos sobre os “documentos” (a hipótese de Wellhausen é cada vez mais questionada) ou as “tradições” que deram origem ao Pentateuco, faz-se mister um aprofundamento de suas características, uma vez que a terminologia empregada por Wellhausen ainda vigora.

 

Assim, o Pentateuco seria a compilação de quatro “tradições” ou “documentos” – a tradição “Javista” (J), a “Eloísta” (E), a “Deuteronomista” (D) e a “Sacerdotal” (P) – diferentes quanto à idade e ao ambiente de origem, mas todas elas muito posteriores a Moisés.

A mais antiga seria a “tradição Javista” (J) – segundo Wellhausen-Graf, “Documento Javista” – assim denominada por designar a Deus, desde o relato da criação, com o nome “Javé”. Sabemos que, após a morte de Salomão, filho de Davi, a “Terra Santa” foi dividida em dois reinos distintos e rivais entre si: Israel e Judá. O “Javista” teria sido redigido em Judá, no reino do Sul, por volta do século IX. Entretanto, críticos modernos estão inclinados a datá-la no reinado de Salomão ou mesmo de Davi, portanto, antes do cisma Norte-Sul.

Segundo os estudiosos, a tradição Javista contém a história do Paraíso e do pecado original; o relato sobre os “filhos de Deus e as filhas dos homens”; o dilúvio, Noé e a vinha; parte da lista das nações; a torre de Babel; a vocação de Abraão e sua viagem a Hebron; a promessa da terra e de uma numerosa posteridade; Agar e Ismael; os hóspedes de Abraão; a destruição de Sodoma e Gomorra; Ló e suas filhas; o nascimento de Isaac; a corte de Rebeca; a história de Isaac; Esaú e Jacó; o nascimento dos filhos de Jacó; Jacó e Labão; Jacó em Siquém; a genealogia edomita; José e seus irmãos; José no Egito; a bênção de Jacó; a opressão de Israel no Egito; o nascimento e a vocação de Moisés; provavelmente, sete das dez pragas; a passagem pelo mar; a viagem do mar ao Sinai; as codornizes e o maná; uma breve notícia da teofania do Sinai; o bezerro de ouro; os mandamentos (Ex 34); a partida do Sinai; o envio dos exploradores à terra de Canaã; a rebelião de Datã e Abiram; a viagem de Cades a Moab; os oráculos de Balaão; a adoração de Baal Peor; a luta entre as tribos orientais e ocidentais; a morte de Moisés.

A “tradição Javista” foi chamada “a épica nacional israelita e é a expressão da consciência nacional de Israel que se originou das vitórias de Davi e da prosperidade que seu reino iniciou” (J. L. McKenzie). O Javista é considerado um dos maiores narradores do Antigo Testamento. Tanto que suas histórias figuram entre as mais conhecidas e apreciadas de toda a Bíblia. No próximo número, ainda discorreremos sobre a “tradição Javista”.

Padre Lucas

Obs.: no nº 200 não teve artigo

200 – Edição Especial – Falecimento do Papa João Paulo II

 

 

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8 Comentários

Publicado por em abril 23, 2008 em Biblia, Estudo Biblico

 

8 Respostas para “As “tradições” literárias do Pentateuco: a “Javista”

  1. Eustásio de Oliveira Ferraz

    junho 3, 2009 at 9:14 pm

    Gostei da aula. Bem didática. Linguagem simples para os fiéis.
    Gostaria saber qual a interpretação ou mensagem que a Igreja católica tem para o oráculo de Balaão ao referir-se à jumenta que fala? O rabino Nilton Bonder diz que é a oportunidade para ouvirmos as mensagens de deus em nosso coração.
    Aguardo resposta, se possivel.
    Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
    Eustásio

     
  2. cristina

    março 25, 2010 at 1:20 am

    Sempre buscamos informaçoes para crescermos no conhecimento. Obrigada. Cristina Coluccini.

     
  3. rodrigo canto

    agosto 16, 2010 at 1:21 pm

    Excelente abordagem. Estou lendo o livro Cânon e História Social e esta explicação foi muito útil.

     
  4. Regina Helena Moreno Ribeiro

    dezembro 20, 2010 at 2:43 am

    Tomei a liberdade de copiar o seu texto para explicar sobre a teoria Javista em meu blog, que na verdade é uma extensão do curso Bíblico que fiz em 2009 o A.T. e 2010 o N.T.
    Sou de Guaratinguetá-SP e fiz o curso na Paróquia de São Francisco de Assis, com o Professor Acácio Vieira de Carvalho. Um senhor que vem dedicando sua vida para o estudo e palestra das aulas Bíblicas. Como achei muito importante esse curso resolvi fazer o blog com a permissão dele, mas, tomo liberdade de buscar explicações aqui… Ele dá o curso há 17 anos e eu sou novata. RS! Como achei uma bela explicação e de muita valia, copiei. Se me permitir gostaria de poder fazer isso em caso de necessidade em outras vezes… Muito obrigada.

     
  5. JULIANO

    agosto 14, 2011 at 8:26 pm

    legal, de fato de muito proveito esta abordagem …. ouvi também sobre estas escolas e resolvi pesquisar … e é certo o que eu ouvi. juliano almeida – ES

     
  6. Maria Zilma Casimiro Bezerra

    abril 13, 2012 at 2:00 am

    Zilma Casimiro
    Abril, 12 às 22:50 hs
    Sou grata pelo artigo, gostei muito. É bastante proveitoso, estou pesquisando.

     
  7. paula frassinetti andrade

    maio 16, 2012 at 2:55 am

    Lendo a Bíblia encontrei essa palavra numa introdução do Gênesis e quis saber o significado. Depois de ler essa abordagem tudo ficou mais claro, muito boa explicação. Obrigada. Paula Andrade – Manaus – Am

     
  8. paulo

    maio 3, 2013 at 9:44 pm

    Achai muito bom o vosso trabalho,esclarecedor, mas como podemos falar de “tradições”, se temos Q-ram, com idade aproximada de 200 anos A.C. e que não contraria o texto biblico?
    E onde estão os documentos que confirmam as hipoteses javistas e elohistas?

     

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