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O Pentateuco

23 abr

“O Verbo” – n° 196 – 1ª quinzena de Fevereiro 2005

Neste ano, iniciaremos um breve comentário aos livros da Bíblia. Começaremos pelo Pentateuco, os cinco primeiros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

A questão das origens e do desenvolvimento do Pentateuco interessa a todos que almejam um conhecimento mais acurado da Bíblia. Já em 1890, Franz Delitzsch constatava que a prioridade absoluta dos estudos bíblicos “devia recair sobre a solução da questão do Pentateuco“. Um pouco mais tarde, F. V. Winnett asseverava que “os estudos do Antigo Testamento jamais encontrarão um alicerce seguro, enquanto não se resolver o problema do Pentateuco“.

 

 

Ora, a tradição judaica sempre viu em Moisés o autor do Pentateuco. Esta tradição levou naturalmente à designação do Pentateuco como “os cinco livros de Moisés”. Conseqüentemente, os rabinos fizeram de Moisés, o autor não só da Torá escrita (Lei), mas também da “Torá oral“. O Antigo Testamento só atribui a Moisés o “código da aliança” (Ex 24,4), o “decálogo cultual” (Ex 34,27), o grande discurso histórico e legislativo do Deuteronômio (Dt 1,1.5; 4,45; 31,9.24; etc.), assim como algumas perícopes menores (Ex 17,14; Nm 33,2; Dt 31,30; etc.). Portanto, antes de tudo, a Lei estava associada à pessoa de Moisés (também Ml 3,22; Esd 3,2; 7,6; 2Cr 25,4; 35,12; etc.), mas só a partir do período pós-bíblico o Pentateuco como um todo lhe foi atribuído, concepção que predominou até o século XVIII.

Contudo, muitas contradições podem ser observadas no texto e revelam sua complexa origem, proveniente de fontes diversas: quantos pares de animais de cada espécie Noé levou em sua arca? Um (Gn 7,15) ou sete (7,2)? Quantos dias durou o dilúvio? Quarenta (Gn 8,6) ou cento e cinqüenta (8,3)? Por que Jacó foi para a Mesopotânia? Para escapar da vingança de Esaú (Gn 27,41-45) ou para encontrar uma mulher de sua própria raça (27,46-28,5)? José foi levado ao Egito por uma caravana de ismaelitas (Gn 37,27) ou de madianitas (37,28)? O Pentateuco compreende também dois relatos da criação (Gn 1,1-2,4a e 2,4b-25), dois relatos da aliança com Abraão (Gn 15 e 17), dois relatos da expulsão de Agar (Gn 16 e 21,9-21), dois relatos da vocação de Moisés (Ex 3,1-4,17 e 6,2-7,7), duas menções do Decálogo (Ex 20,2-17 e Dt 5,6-21), três relatos de Sara entregue ao harém de um rei estrangeiro (Gn 12, 10-20 e 20 e 26,6-14), etc.

Entretanto, não foram somente esses anacronismos que despertaram a desconfiança a respeito da atribuição tradicional do Pentateuco a Moisés. Foram, sem dúvida, as observações que dependem da lógica literária que levaram os exegetas a levantar a questão das “fontes”. Uma maneira bastante óbvia de tentar resolver o problema das “contradições, dos dobletes” (mais de uma versão para o mesmo fato) e das diferenças de estilo foi atribuir as passagens em conflito a fontes, documentos ou camadas redacionais diferentes. No próximo número aprofundaremos mais esta questão.

 

Padre Lucas

 

 

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Publicado por em abril 23, 2008 em Uncategorized

 

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