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A Tradição Deuteronomista II: O código deuteronômico (Dt 12-26)

28 maio

“O Verbo” – n° 205 – 2ª quinzena Junho 2005

Por Padre Lucas

Vimos, anteriormente, que o livro Deuteronômio não foi elaborado de uma só vez. Ele é fruto da tradição Deuteronômica ou Deuteronomista. O livro que temos hoje pode ser dividido, segundo a Bíblia de Jerusalém, em quatro partes: discurso introdutório (1-11); código deuteronômico (12,1-26,15); discurso conclusivo (26,16-30,20); últimos atos e morte de Moisés (31-34).

 

Hoje, abordaremos o “código deuteronômico”. Ele reúne, sem ordem clara, diversas coleções de leis de diferentes origens, algumas oriundas do reino do Norte e introduzidas no Sul, após a queda de Samaria (722). Este conjunto considera a evolução social e religiosa de Israel que deve substituir o antigo código da Aliança. Ele começa e termina com normas e diretrizes em relação ao culto a Javé (12,1-16,17 e 26,1-15). Ora, é típico da legislação israelita, situar um complexo de leis em um quadro cultual. Esse código sublinha, desde o início, o lugar onde se deve prestar culto a Deus e proíbe a prática de ritos pagãos (12,1-31). De fato, esta lei pretende, no mesmo espírito dos profetas, defender o culto a Javé de qualquer contaminação dos cultos cananeus, mediante a destruição dos “lugares altos” destes cultos e pela imposição de um só lugar para o culto javista. Daí a fórmula “lugar que Deus escolheu para aí colocar o Seu nome“, “para aí habitar o Seu nome” ou “para aí lembrar o Seu nome“. A lei que abre o código deuteronômico se assenta na unidade de santuário. O israelita deve prestar culto a Deus “no lugar que o Senhor escolher” (12,5), expressão assaz vaga que não se refere necessariamente ao templo de Jerusalém. Sabemos, entretanto, que, no momento da redação do código, provavelmente depois da queda de Samaria, o único templo existente para os refugiados do Norte é o de Jerusalém, e que essa cidade se tornou, de fato, “o santuário no qual Deus faz residir o seu nome” (12,5).

Podemos afirmar que este código é uma compilação de leis já existentes, mesmo que sua estrutura reflita a do Decálogo. De fato, uma análise do texto leva a reconhecer “coleções de leis” que têm, provavelmente, origem independente. Mas o código não pode ser separado de seu contexto, pois ele faz parte de uma estrutura mais vasta que é a da aliança.

Nota-se no código uma mistura de gêneros, tanto no plano literário quanto no do conteúdo. O Deuteronômio, em seu conjunto, é uma reflexão sobre a infidelidade de Israel, infidelidade que levou ao desaparecimento do reino do Norte. Percebe-se, atrás do código, uma reflexão teológica sobre aquilo que Israel deveria ter feito para corresponder à vontade de Deus. “Pela leitura do código deuteronômico descobre-se que o que a legislação queria era suscitar uma comunidade fraterna, o que explica o uso do termo “irmão”, que se encontra 25 vezes no Deuteronômio” (J. Briend). Continua no próximo número.

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Publicado por em maio 28, 2008 em Biblia, Estudo Biblico

 

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