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A Tradição Deuteronomista III: O Deuterônomio, livro da Aliança

28 maio

“O Verbo” – n° 206 1ª quinzena de Julho 2005

Por Padre Lucas

O termo “Aliança” (berit, em hebraico) ocorre 27 vezes no Deuteronômio. Em numerosas passagens, o Deuteronômio designa o acontecimento do Sinai como uma “Aliança”. Contudo, em 5,2-3 acrescenta-se algo novo: “Iahweh, nosso Deus, concluiu conosco uma Aliança no Horeb. Iahweh não concluiu esta Aliança com nossos pais, mas conosco, conosco que estamos hoje aqui, todos vivos“. Note-se a expressão “conosco“, que mostra que, seja qual for o papel de Moisés, a Aliança foi feita entre Deus e o povo.

O Deuteronômio insiste que Iahweh é Aquele que guarda a Aliança e a misericórdia para com os que o amam (7,9.12); Ele é o Deus fiel, que faz conhecer sua Aliança (4,13) ou ainda que estabelece sua Aliança (8,18). Contudo, não obstante a fidelidade de Deus, infelizmente paira em todo o livro grande inquietação: Israel pode transgredir a Aliança (17,2), romper a Aliança (31,16.20), abandonar a Aliança (29,24), esquecer a Aliança (4,31). O livro põe assim em relevo a liberdade de escolha do povo perante Iahweh e a fragilidade de sua adesão ao projeto de Deus. Essa inquietação nasce da experiência real da constante infidelidade do povo. Daí que a exortação à obediência à Lei confirma uma situação de desobediência generalizada. Essa é a questão que está no cerne do Deuteronômio.

O Deuteronômio é o Livro da Aliança. Mas, de algum tempo para cá, se começou a pensar que na sua estrutura ele se aproximava dos tratados de vassalagem então em uso. Já se sabia pelos próprios textos bíblicos que a aliança na linguagem dos homens do Oriente antigo designava uma realidade político-religiosa: “O estudo da aliança como realidade político-religiosa se enriqueceu no decorrer dos anos, com o conhecimento dos tratados de aliança celebrados entre soberanos do Oriente antigo nos séculos XIV-XIII, dos tratados aramaicos (séc. VIII), dos tratados assírios (séc. VII). Esses textos podem dividir-se em dois grupos: os tratados entre iguais e os tratados de vassalagem constituindo estes últimos o grupo mais importante” (J. Briend).

De fato, encontra-se no Oriente antigo, apesar das variações, a mesma estrutura dos tratados de vassalagem: pode-se falar do gênero literário “formulário de Aliança” que seria comum a todas as cortes reais. Entretanto, esse “formulário”, tal como é conhecido, não se aplica diretamente ao Deuteronômio. Compreende-se isso sem dificuldade admitindo-se que se pode passar de uma linguagem política e religiosa para uma linguagem propriamente teológica. Essa passagem não se faz sem rupturas, das quais uma das mais claras é que Deus não pode ser testemunha nem mediador, como em Oséias 2,20; na Aliança, Ele é parceiro. (Continua no próximo número).

 

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Publicado por em maio 28, 2008 em Biblia, Estudo Biblico

 

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