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A Tradição Deuteronomista IV: Uma Aliança entre Deus e o povo de Israel

28 maio

“O Verbo” – n° 207 – 2ª quinzena de Julho 2005

Por Padre Lucas

Em que consiste afinal a Aliança? Não se trata de um acordo bilateral entre iguais, como nos “tratados de vassalagem”, que abordamos no artigo anterior. Ora, no Deuteronômio, é evidente a distância entre as partes: Iahweh e Israel. O povo de Deus sempre teve consciência da transcendência de Iahweh. Ele sabe que é Deus quem toma a iniciativa, mas deixa Seu povo livre para decidir se aceita ou não essa escolha (Dt 30,15-20). Por que o Deuteronômio desenvolveu uma teologia da Aliança e utilizou o “formulário da Aliança”? Aceitando ser esse livro obra do Reino do Norte, encontramos duas respostas que se completam mutuamente: os últimos anos do reino do Norte mostraram que as alianças políticas só levaram ao desastre.

 

Oséias condenou essas alianças (Os 10,4;12,2) e disso o Deuteronômio era conhecedor; por isso, repete uma antiga condenação das alianças referente à época da conquista (Dt 7,2; Ex 23,32; 34,12.15; Jz 2,2). Israel é cônscio de que foi sua infidelidade a Iahweh que levou à queda o Reino do Norte. A segunda resposta é uma conseqüência da primeira: o Reino do Norte tinha conservado a tradição de uma Aliança entre as tribos em Siquém (Js 24). Oséias conheceu uma Aliança semelhante, de uma dimensão religiosa inegável (Os 6,7). O livro do Deuteronômio herdou alguns materiais provenientes desse modelo de Aliança, de uma Aliança entre tribos; reconhecendo lahweh como Deus de Israel, passa-se para uma Aliança entre lahweh e Israel. Essa linguagem teológica teve um lento amadurecimento, mas podia apoiar-se na existência de uma relação com Deus, estabelecida há muito tempo; uma tradição de Aliança que esperava apenas ser reinterpretada em função dos acontecimentos de uma época mais recente.

O livro do Deuteronômio insiste que, na Aliança, Deus é o parceiro de Israel. Essa diferença fundamental, em relação aos “tratados de vassalagem”, acarreta outras igualmente substanciais, e que dizem respeito de modo particular à natureza da relação entre Iahweh e Seu povo. Ora, de um lado, Iahweh foi quem tomou a iniciativa da Aliança em relação às tribos que viriam a constituir o povo eleito. Por isso, no Deuteronômio, são abundantes os adjetivos possessivos para expressar essa realidade: nos lábios de Iahweh enfatiza-se a “Minha Aliança“; ao passo que o povo sempre remeterá a Aliança a Iahweh pelo emprego de “Tua Aliança” ou “Sua Aliança (a Aliança Dele)”. Por outro lado, trata-se de um relacionamento; o que exige a existência de dois parceiros. De fato, da Aliança decorrem obrigações para Israel. Tais obrigações podem se resumir em “ouvir a voz do Senhor seu Deus e praticar os Seus mandamentos“. Esse foi o grande desafio para Israel ao longo de toda a sua história. E o livro do Deuteronômio quer ser, pois, uma reflexão madura e realista sobre o por quê dessa infidelidade, e lançar uma luz para que se retome o radicalismo de se viver a Aliança qual única alternativa de sua subsistência como “povo de Deus e nação santa”. (Continua no próximo número.)

 

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1 comentário

Publicado por em maio 28, 2008 em Biblia, Estudo Biblico

 

Uma resposta para “A Tradição Deuteronomista IV: Uma Aliança entre Deus e o povo de Israel

  1. Márcia

    maio 25, 2012 at 2:52 pm

    Olá bom dia! Estes artigos são uma delícia de se ler. Só uma observação, neste em particular você usa a expressão “adjetivos possessivos”; não seria neste caso “pronomes possessivos”?

     

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