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A Tradição Deuteronomista

28 maio

“O Verbo” – n° 204 – Edição Especial – Corpus Christi – 1ª quinzena de Junho 2005

Por Padre Lucas

O livro Deuteronômio não foi elaborado de uma só vez. Ele é fruto da tradição Deuteronômica ou Deuteronomista. Para se compreender o seu alcance e significado, é necessário, em primeiro lugar, situá-lo no seu contexto histórico. A partir do ano 628, quando o império Assírio começou a ruir, o rei Josias (640-609) iniciou uma reforma política e religiosa no reino do Sul. De fato, Josias logrou libertar-se do jugo assírio, reconquistou grande parte do território de Israel, e realizou uma reforma religiosa sobre a qual a Bíblia longamente se detém (2Rs 22-23). Ele decidiu mandar fazer restaurações no templo de Jerusalém, onde o sacerdote Helcias descobriu um livro, “o livro da Lei” (2Rs 22,3-10). Ora, ao constatar que não se tinha obedecido às palavras desse livro (2Rs 22,13), Josias decidiu mandar lê-lo diante de todo o povo (2Rs 23,2).

 

Que é, afinal, esse “livro da Lei” ou “livro da Aliança”? Reconhece-se nele uma “primeira edição” do Deuteronômio que temos hoje. Refletindo as tradições do reino do Norte, foi composto provavelmente em Jerusalém, no reino do Sul, após a queda da Samaria em 722. De fato, numerosos são os sólidos indícios que permitem concluir que o núcleo do Deuteronômio esteja mesmo ligado ao do reino do Norte: nota-se a intenção deliberada de fazer a Lei emanar da autoridade de Moisés e de Deus; admite-se Moisés falando nos discursos dos capítulos 1-11. Neste sentido, o Deuteronômio segue a linha da tradição Eloísta e dos profetas do Norte, como Elias e Oséias; a revelação fundamental de Deus, a Lei ou Decálogo, situa-se no Horeb e não no Sinai, como na Javista. Há, de um lado, uma versão do Decálogo (Dt 5,6-21) ligada ao Horeb (5,2); ora, o Decálogo moral provém do Norte, como o mostra o texto de Ex 20,1-17. De outro lado, o centro do livro é ocupado pelo código deuteronômico (Dt 12-26).

A “primeira edição” do Deuteronômio deve ter sido depositada no templo durante o reinado de Ezequias (715-687). Não nos esqueçamos que habitantes do reino do Norte tinham procurado refúgio em Jerusalém, trazendo consigo suas tradições. Não nos esqueçamos também que, durante o reinado de Ezequias, desenvolveu-se intensa atividade literária: fusão das tradições Javista e Eloísta; redação de coleções de Provérbios (Pv 25,1), de Salmos e de ditos de Oséias etc. Apoiando-se nas palavras desse livro, é que, certamente, Josias tomou algumas medidas tais como a centralização do culto em Jerusalém (Dt 12.13s) e a destruição dos altares e do “lugares altos” (Dt 12,2-3; 2Rs 23,4-14). Assim, a partir de 622, a influência do Deuteronômio primitivo não deixou de crescer, no decorrer do tempo, o que explica as numerosas fases que ele conheceu até chegar à sua redação final. “As descobertas de manuscritos bíblicos, em Qumran, mostram que esse livro era muito lido e recopiado, quase como o rolo de Isaías” (J. Briend). Continua no próximo número…

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1 comentário

Publicado por em maio 28, 2008 em Biblia, Estudo Biblico

 

Uma resposta para “A Tradição Deuteronomista

  1. manoel paes

    agosto 4, 2008 at 10:02 pm

    Além das quatros tradições: eloista deuteronomista, sacerdotale javista existem outras?

     

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