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A mensagem do Pentateuco III

10 jun

“O Verbo” – n° 217 – 2ª quinzena de Dezembro 2005

A compilação definitiva do Pentateuco foi profundamente marcada pela experiência do Exílio. Vimos que esse fato, além de prejuízos históricos e sociais, colocou várias questões de ordem teológica. O povo se encontrava numa situação delicada: longe da Terra Santa, “lugar de Deus”, sem Templo e sem reis, apesar da promessa divina feita a Davi de uma dinastia eterna. Vimos, entretanto, que, quando tudo parecia estar perdido, alguns teólogos puderam apelar para a volta às promessas mais antigas e ao ideal mosaico ou falar de atos salvíficos totalmente novos.

Daí que, nos textos exílicos e pós-exílicos, a ênfase na circuncisão e o renovado interesse pelo sábado podem ser facilmente entendidos como esforços para manter a identidade do povo eleito em meio à cultura estrangeira, uma vez que a mera assimilação dos costumes dos dominantes parecia oferecer mais possibilidade de sucesso.

Para os teólogos exílicos, era tempo de confessar a culpa, reconhecer a completa justificação das ações de Iahweh e voltar a Iahweh. Anunciavam com renovada ênfase a disposição de Deus para o perdão. Ainda que alguns judeus reagissem com tristeza quase incontrolável, para muitos a articulação da aflição por problemas físicos e teológicos trouxe a catarse. “Para outros as profundas expressões de tristeza eram o meio de levar Iahweh a agir. Ou será que o sofrimento por si mesmo poderia ser redentor? Suportar silenciosamente os reveses da história como servo de Iahweh, confiando somente nele – não seria este um meio de fazer as nações verem a grandeza de Iahweh até na punição?” (R. W. Klein).

O Exílio moldou toda a mensagem e toda a perspectiva desses escritores. Em relação a cada “livro” do Pentateuco se propõem as seguintes questões: De que forma esse livro é resposta ao Exílio ou análise dele? Que idéias novas são invocadas por determinado autor? Sobre quais tradições antigas se apóia? Qual é o ponto central em torno do qual gira sua resposta ao Exílio? Qual era o caminho para sair do Exílio ou superá-lo?

Vimos que as tribulações do Exílio foram ocasião para algumas das idéias mais profundas de todo o Antigo Testamento. Ora, os teólogos desse período discutem o Exílio à luz da fé. Por isso, fornecem respostas autorizadas e significativas de Deus. Isso ocorre não só porque as “respostas” são fortes, mas também porque as questões levantadas pela época exílica são muito agudas: questões de identidade e razões para esperança; questões sobre quem ou o que é a causa do mal de Israel; questões sobre a continuação da validade dos símbolos: Terra, templo, monarquia; questões para e em tempo de mudança radical, questões para os que perderam suas raízes e cujo futuro parecia estéril e carregado de conflitos…

Esses teólogos logram tirar o máximo proveito da grande catástrofe. Levantaram questões que ainda hoje desafiam teólogos, clero e fiéis. Por isso, podemos ler o Pentateuco em vista de tirar o máximo proveito dos nossos “desastres”. Somos intimados, por meio dele, a usar seus recursos para também responder criativamente e com fé aos desafios “exílicos” de hoje. Continua no próximo número.

Padre Lucas

 

 

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Publicado por em junho 10, 2008 em Biblia, Estudo Biblico

 

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