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Introdução geral ao livro do Gênesis (II)

10 jun

“O Verbo” – n° 221 – 1ª quinzena de Março 2006

O livro do Gênesis narra a origem do mundo, do ser humano e do povo de Israel. Entretanto, trata-se de uma informação de cunho essencialmente religioso. Vimos que a história redacional do Gênesis deu-se num processo de longos anos (e mesmo, séculos!), mediante a fusão de várias tradições (J, E, P) que foram primeiramente transmitidas e celebradas oralmente de geração em geração, e, mais tarde, redigidas. Somente após o século V a.C. aproximadamente, foram compiladas em um livro. Dessa história da origem do livro do Gênesis segue-se que suas narrativas tão concretas não podem ser interpretadas como relatórios exatos dos fatos; nem tampouco na base da inspiração, pois essa não é fonte de novas informações, mas de uma compreensão, pela fé, dos dados enquanto existiam.

De fato, o mérito desses relatos não consta a priori, pois se reduzem à observação espontânea de pessoas que não dispunham de nenhum instrumento científico; apóiam-se, pois, na “ciência” daquele tempo ou nas lembranças coletivas ou locais, muitas delas encobertas por toda uma sorte de anedotas etiológicas e folclóricas. O que não significa, absolutamente, que o Gênesis seja simplesmente fruto da imaginação humana.

Ora, uma tradição cada vez mais ampla, como a observamos no Gênesis, exige um ponto de partida objetivo – pessoas, situações, acontecimentos, mesmo que agora não possam mais ser determinados com exatidão – a partir do qual toda aquela tradição se pôs em movimento. E mesmo quando já em movimento, tal tradição foi se enriquecendo com dados, não da fantasia, mas da experiência, de sorte que o livro do Gênesis oferece uma imagem fidedigna de muitos aspectos da vida de Israel; suas narrativas exprimem e caracterizam situações reais.

O limitado valor histórico dessas narrativas não compromete a mensagem bíblica. Pois esses relatos sobre a origem do mundo, da humanidade e de Israel (ou das “primeiras coisas”) são, na verdade, uma protologia; ou seja, “referem-se apenas aparentemente ao passado longínquo; na realidade exprimem a fé no futuro do homem e de Israel, referem-se antes às ‘últimas coisas’. Dessa forma, a protologia bíblica é escatológica” (Van den Bom).

À luz da fé, mediante esses relatos, Israel descobriu o sentido da vida, gerando uma nova perspectiva para o homem e para o mundo. Israel percebeu o projeto de Deus na história da existência humana: aquilo que o homem e Israel deviam ser e, apesar de tudo, ainda podem vir a ser!

Assim, todo o livro do Gênesis se reveste desse caráter protológico. Seu ponto de partida não é, pois, o passado, mas o presente do povo de Deus e da humanidade. Enfim, a situação em que o homem de fato se encontra. Em Gênesis 1-11 isso já é evidente por si, mas também na história dos patriarcas, a maior parte dos dados mais exprime aquilo que Israel deve ser e crer do que aquilo que os patriarcas realmente realizaram e foram. Desse modo, mediante uma referência ao passado – que na realidade é uma perspectiva para o futuro! – o Gênesis quer contribuir para uma iluminação da existência pela fé. Por isso, os materiais e o colorido das narrativas devem, freqüentemente, mais à atualidade (século IV – V a.C.) do que ao passado…

Padre Lucas

 

 

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Publicado por em junho 10, 2008 em Biblia, Estudo Biblico

 

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