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Teologia de Gn 1,1-2,4a (IV)

01 set

“O Verbo” – n° 231 – 1ª quinzena de Agosto 2006

Deus disse: ‘Haja um firmamento no meio das águas que separe as águas das águas’, e assim se fez. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão abaixo do firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou ao firmamento ‘céu’. Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia (Gn 1,6-8).

 

Como já mencionamos anteriormente, muitos povos antigos concebiam o céu como uma cúpula sólida, que denominavam “abóbada” ou “firmamento”. Para esses povos, o céu era como que uma sólida tenda armada que retinha as águas superiores e, por suas aberturas (espécies de “comportas” ou “torneiras”) é que Deus fazia cair as chuvas, a neve ou o dilúvio sobre a terra (Gn 7,11).

 

De fato, na língua hebraica, “raqîah” indica algo como uma lâmina. A tradução grega dos LXX, à falta de outro vocábulo, o traduziu por “steréoma”: “solidez”, “ponto de apoio”. Em latim clássico, tornou-se “firmamentum”, que significa apenas “o que suporta”, “firmeza”, “sustentáculo”, e jamais serviria para indicar o céu.

 

Entretanto, o uso bíblico passou para as línguas neolatinas. O firmamento é, pois, concebido como uma lâmina que suporta acima de si as águas superiores, que, às vezes, precipitam-se em forma de chuva ou neve sobre a terra.

 

Portanto, esses versículos parecem exprimir que, na massa das águas, primeiramente se formou como que uma lâmina que, depois, levantando-se, elevou consigo as águas que lhe estavam por cima. Assim, o firmamento corresponde à imagem de um elemento sólido, plano ou abobadado, que retém águas superiores (cf. Ez 1,22-23).

No versículo 7, Deus fez o firmamento. Ora, a afirmação Deus fez se repetirá também adiante, quando se falar da criação dos astros (“Deus fez dois luzeiros”, v. 16), dos animais ferozes (“Deus fez as feras…”, v. 25) e do ser humano (“façamos”, v. 26). Dessa forma, a Tradição Sacerdotal parece integrar à sua concepção mais espiritual da criação pela Palavra, “Deus disse”, uma tradição mais antiga, paralela ao relato de Gn 2,4b-25, segundo o qual a criação se dera mediante um ato divino: Deus “fez” o céu e a terra, o homem e os animais.

 

“E Deus chamou ao firmamento ‘céu'” (v. 8). A imposição do nome, que significa o ingresso desta criatura na realidade das coisas existentes, acentua que só neste ponto começa a existir um céu distinto do mar.

 

Note-se que, no texto hebraico, a fórmula de execução e assim sucedeu se encontra no final do v. 7, mas os sábios gregos (LXX), seguindo a analogia com os vv. 9.11.15.24.30, colocaram-na no final do v. 6, entre a ordem e a execução. Além disso, poder-se-ia acrescentar, como faz também a LXX, a fórmula de louvor: “e Deus viu que era um bem”, ao fim do v. 8, por analogia com a estrutura das outras obras.

 

Padre Lucas

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Publicado por em setembro 1, 2008 em Biblia, Estudo Biblico, genesis

 

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