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Elementos teológicos de Gn 1,1-2,4a

06 jan

“O Verbo” – n° 240 – 2ª quinzena de Dezembro 2006

Após analisarmos Gn 1,1-2,4a, faz-se mister a apresentação de uma síntese de seus principais elementos teológicos ou doutrinais.

 

Atualmente, a interpretação comum entre os estudiosos de Gn 1,1-2,4a denomina-se histórico-artística. Esta denominação foi introduzida por A. Fernández, em artigo exegético da “Verbum Domini”, em 1923, por estabelecer uma distinção entre o elemento doutrinal e o elemento artístico, ou seja, o modo como esta doutrina é apresentada, ou à forma literária de que ela se reveste. O “elemento artístico”, ou “forma literária”, vem, assim, a ser o meio, mas não o objeto da doutrina. O que equivale a afirmar, como temos insistido, que não se devem tomar ao “pé da letra”, ou de modo fundamentalista, as informações apresentadas nesse “poema”.

Hoje, abordaremos os elementos teológicos e, no próximo número, os artísticos. Ora, sabemos que o elemento doutrinal é também histórico, não por descrever fatos comprováveis pela ciência histórica, mas enquanto apresenta acontecimentos que se desenvolveram no tempo. Apoiados, sobretudo, na Encíclica Humani Generis, de 12 de agosto de 1950, do Papa Pio XII, que, de certa forma, definiu, nesse capítulo, a questão relativa ao que é histórico e ao que é recurso literário, podemos afirmar que o elemento doutrinal se encerra nos seguintes pontos:

A afirmação da existência de um único Deus, antes e fora do mundo. O mundo, em todos os seus aspectos, é obra de Deus e exterior a Ele. Não é uma parte de Deus, e criatura nenhuma pode se apropriar da Sua dignidade, ou seja, ser divinizada. Verificamos que, no contexto do Exílio, o sol ou a lua, eram reverenciados como deuses pelos babilônicos, e animais eram considerados divinos por povos vizinhos, como os egípcios.

O monoteísmo é expresso ainda na criação de todas as coisas por Deus, sem o auxílio ou oposição de ninguém. Deus não possui nenhum concorrente ou auxiliar.

A criação foi realizada por simples ordem ou desejo divino, sem esforço, exprimindo, assim, o poder e a sabedoria de Deus.

Todas as criaturas são boas – Ele viu que isso era bom – enquanto correspondem ao projeto de Deus. Assim se elimina uma visão dualista da criação, que admite, por exemplo, os princípios do Bem e do Mal, na origem do mundo e dos seres.

O ser humano é a obra prima de Deus. Homem e mulher foram criados em igual condição e dignidade: à imagem e semelhança de Deus. Ambos têm o mesmo valor e possuem a mesma capacidade. A distinção dos sexos é obra divina, principalmente em ordem à bênção da procriação: crescei e multiplicai-vos!

A imagem de Deus lhes confere o poder para administrar os demais seres e o mundo em nome do Criador. A disposição do mundo criado deu-se de forma progressiva. Entretanto, o fato – comprovado pela ciência – de o ser humano aparecer por último tem aqui uma conotação essencialmente religiosa sem nenhuma implicação histórico-científica. O autor sagrado quer asseverar que o ser humano é a coroa da criação. Nessa concepção religiosa todos os seres e elementos cósmicos estão a seu serviço.

O trabalho humano tem seu modelo no agir sublime de Deus Criador. Também o merecido repouso, após seis dias de intenso labor, encontra uma legitimação teológica: E no sétimo dia Ele descansou.

A criação marca o início da história salvífica. Este ponto doutrinal se funda no contexto e em outras passagens que unem, de modo assaz estreito, o Deus Criador ao Deus Salvador. Sabemos que, historicamente, Israel fez primeiro a experiência de salvação, a fuga do Egito, ou Êxodo. Somente mais tarde, em contato com outros povos, logrou atingir a concepção de um Deus Criador. Esse capítulo, portanto, apresenta uma elevada evolução teológica, ao afirmar que o Deus que salvara da opressão egípcia e o mesmo e único Criador do mundo e “de todas as coisas visíveis e invisíveis”.

Padre Lucas

 

 

 

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Publicado por em janeiro 6, 2009 em Biblia, Estudo Biblico, genesis

 

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