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Elementos artísticos de Gn 1,1-2,4a

25 fev

“O Verbo” – n° 241 – Edição Histórica – Especial 40 anos  Janeiro 2007

No artigo anterior, começamos a abordar os elementos histórico-artísticos do nosso texto. Vimos que tal expressão é utilizada por estabelecer uma distinção entre o elemento doutrinal e o elemento artístico, ou seja, o modo como esta doutrina é apresentada, ou a forma literária de que ela se reveste. Versamos, então, sobre os elementos históricos dessa nossa narrativa. Hoje, começaremos a trabalhar o “elemento artístico”, ou “forma literária”, ou seja, o meio utilizado para apresentar a doutrina que se almeja transmitir.

 

 

Os principais elementos artísticos desse texto são: a concepção idealizada do cosmo; a disposição esquemática das oito obras; a menção dos seis dias mais o sétimo; e o uso de alguns antropomorfismos.

 

Em Gn 1,1-2,4a, a forma artística provém de uma concepção ideal do mundo físico. Como já afirmamos em outras ocasiões, o autor sagrado descreve o cosmo segundo a concepção vigente ou comum de sua época. Sabemos que o carisma da Inspiração bíblica não anula ou suplanta a capacidade do inspirado. Quando Deus quis se servir do ser humano para transmitir Sua palavra, submeteu-se aos condicionamentos históricos e culturais do hagiógrafo.

 

Como já vimos anteriormente, para os antigos semitas a terra era plana, como que uma espécie de disco colocado sobre o abismo das águas e circundado pelo mar, coberto por uma abóbada ou cúpula sólida, firme, daí o termo “firmamento”, que sustentava as águas celestes. Ao longo dessa cúpula, deslocavam-se os astros, cuja grandeza era medida pelo que aparecia aos olhos. Portanto, trata-se de uma linguagem que supõe uma síntese ideal dos dados fenomênicos.

 

A disposição esquemática das oito obras em seis dias corresponde a um critério artístico e, conseqüentemente, não objetivo. O critério consiste em dispor as obras em duas séries paralelas, cujo princípio distintivo é o da estabilidade e do movimento: uma série apresenta a criação dos espaços, e a outra abrange os seres que se movimentam nesses espaços. “Esta razão de simetria é o único motivo da inserção dos vegetais antes dos astros” (G. von Rad).

 

Ora, se considerarmos as oito obras como oito estrofes de um poema, escrito para exaltar a criação, não nos admiraremos de encontrar entre as obras uma ordem e um nexo ideais, poéticos, correspondendo a exigências artísticas e de expressão.

 

A menção dos seis dias e do sétimo dia é uma forma de apresentar a ação e o descanso divino como escopo de um dia festivo. Trata-se, evidentemente, de antropomorfismo. Deus quis que a terra assumisse, a certa altura, um aspecto definitivo e que não surgissem mais novos gêneros de criaturas. Além disso, quis Deus que o sétimo dia fosse de descanso para os seres humanos. Por isso, o autor apresenta a impenetrável ação divina dividida em seis dias, seguidos de um repouso no sétimo: e no sétimo dia Ele descansou. Assim, vemos que a sucessão dos seis dias mais um sétimo tem igualmente uma motivação artística. De fato, o recurso ao “sétimo dia” é atestado tanto em escritos na Babilônia como em Ugarit, como um procedimento literário apto a destacar o prolongamento duma situação até que ela se altere ou cesse. Semelhante recurso é também utilizado pelo autor do Apocalipse (6-16), ao mencionar a série de sete selos, na qual o sétimo objeto de cada série introduz uma nova realidade.

 

Embora, no passado, a interpretação literal, seis dias, tenha sido sustentada por muitos Padres, por não haver nenhum motivo para se pensar de outra forma, desde Santo Agostinho (século IV), no De Genesi ad litteram, se entende alegoricamente a sucessão e a disposição das obras dos seis dias. Santo Tomás de Aquino (século XIII), na De Potentia, reconheceu a autenticidade da interpretação do gênio de Hipona. Mas foi o progresso científico da geologia que fez com que a interpretação literal se tornasse insustentável. Continua…

 

Padre Lucas

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Publicado por em fevereiro 25, 2009 em Biblia, Estudo Biblico, genesis

 

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